domingo, 26 de julho de 2020

Lulúpulas

Lulúpulas



O que são “lulúpulas”
Senão o que ela quer,
E deseja,
E pega,
E vê?

Não sei se são doces,
Balas, caramelos, estrelas.
Se são brinquedos
E “sbinóquios”.
Se são crianças etéreas
Daquelas que só ela vê.
Ela quer as “lulúpulas,”
Como eu quero ser feliz,
Como quem quer ficar rico,
Ou ser dono do nariz.


Autora: Valéria Áureo

To: Candice A.C.L. da Fonseca

Emergente caligrafia – O Almoço


                                                     Ilustração: Internet


No teu prato quis fazer-te poesia,
Arrumando arranjos, beijo ambrosia,
Folhas de alfaces florais, ao meio-dia; 

Eram teus cinco anos e alguns dias.
Verdes tão claros, água e turmalinas;
Algas marinhas de esperanças, quando tu me sorrias.
Quis servir-te sonhos, doces de alecrim e alegrias,
Para saciar-te a fome de fantásticas perguntas e geometrias.

Com espumas brancas de mar e açúcar confeitei...
Fractais desenhados na toalha de mesa.
Cristais quebrei.
Quis servir-te poemas de chocolate por sobremesa ...
Água fresca da talha. Lágrimas jorrei.

Quebrada a casca
Do ovo nasceu precoce e bela,
A emergente caligrafia. Aos três e poucos anos.
Clara a abrangência de sintagmas e enigmas,
Como luz acesa, de teu coração cartesiano;
Óbvia a lucidez de um teorema, flutuante,
Para tua cabeça atenta. Ouço planos
De um menino de sonhos e cálculos...

Dar-te beijos, era o meu mais tímido projeto.
O garfo farto para, já sem fome. Sobra o prato...
A gema resta intocada e luzidia, sobre a clara rota.
Deste-me o sol iluminado, quente, como um arquiteto,
Ardendo em muitos raios, reflexo repartido,
No meu coração perplexo,  qual bebida espumante,
No sorriso de tua pequenina boca, então contido.


Autora: Valéria Áureo

To: Hubert A. C. S. Fonseca

sábado, 22 de setembro de 2018

Os Desenhos de Maitê




... 

Ela poderá saber desenhar no futuro, tão bem como o bisavô Zoberto. Quem saberá dizer dos dons que traz em sua bagagem? Talvez ela possa ser uma brilhante desenhista, que possua em sua tinta o poder da síntese, a discreta autoridade da crítica e a arte do encantamento. Talvez ela possa desenhar assim, como tem feito em seus primeiros traços, riscos e rabiscos, com o seu olhar de criança recém-chegada no mundo, onde tudo é novidade. Ela, que parece conseguir ver além das primeiras formas e cores, insiste dizer que a cor é lilás, o céu é rosa, a baleia é verde e a tartaruga é roxa. Ela, sempre atenta, intervém no papel, concebendo muito além dos tons e nomes que criamos para as coisas, e das aparências indecifráveis que criamos para as pessoas. Ela intervém peremptória com suas mãos céleres e cobre em rabiscos todo o papel com a tinta azul.


Ela poderá fazer tudo isso e muito mais que concebemos em nosso mundo de razões, porém, se não tivesse em quantidade transbordante o amor, o desenho seria tão relevante como uma mancha de nanquim entornado em uma toalha branca. Ao contrário, ela é uma graciosa arte.


Tudo bem não saber desenhar, por enquanto... Ou saber muito além de minhas limitadas percepções... Quem poderá dizer que quando rabisca o papel, já não sabe desenhar misteriosa e precocemente os fractais resplandecentes, que recolheu no caminho de sua viagem espiritual para a Terra, porque, como anjo atento, veio memorizando o caminho de luz, até a barriga de sua mãe.


Eu conheço você e o seu amor, quando está ao meu lado. E, pelo tamanho dele, esse amor imenso, dentro do coração vermelho (zemelho/memelho), tenho certeza que a fé e a esperança estarão sempre juntas de nós. Seu coração será permanentemente a ponte mais firme, segura e resistente para a nossa alma, que nos levará para todos os lugares do universo.


Autora: Valéria Áureo


In: Entre Mente e Corações

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Quem é ela?


Estamos nos conhecendo. Amorosamente, nos conhecendo nas primeiras carícias na pele. Tudo em torno é suavidade e primeiro olfato. Ela ocupa um espaço pequenino, mas o mundo é ainda menor para tanto. Ela ocupa tudo. Não é mais a ideia de sua vinda do universo da concepção, mas a concretude de sua existência física, palpável, nas delícias do tato.
Ela é! Respira, tem hálito e alma, desde o momento em que se instalou no pequeno berço do corpo materno, onde fez ninho... Ah! O amor que se vai construindo a cada expectativa do que virá a ser, a cada toque, a cada sorriso, ou inquietação... Por que chora? Por que as lágrimas são tão grandes no rosto tão pequeno? São os primeiros rios de água doce a ocupar o sal de minha alma.
Ah! Ela chora porque ainda não me conhece na minha amplitude serena da idade, no outro extremo de sua chegada, na alma plenitude conseguida com tempo e adequação. E nem eu mesma sou aquela que acreditava ser ainda ontem, e que ainda me descubro refletida nos olhos dela, onde me procuro nadando, nadando, nadando...
A pequena que se faz na urdidura dos afagos, do leite, do amor, ocupa o universo já na sua tíbia percepção e me olha profundamente e ri. Ela investiga o meu rosto, eu investigo o rosto dela e assim nos reconhecemos: eu, a mãe do pai, no outro lado da linha, sou ponto de uma tapeçaria. Reflito sobre a calmaria dos anjos enquanto ela dorme. Sou ponte e sou porto. E nessa costura de ternuras, ela me mostrará a cada dia quem eu sou - pois me faço diferente todos os dias. Hoje eu sei que sou avó! Avó da Maitê!


Autora: Valéria Áureo
To: Hubert, Carol, Maitê, Candice e Luiz Fernando

sábado, 17 de junho de 2017

Clara e seus botões



 Clara
 
e
Seus
botões...

De ponta cabeça

          Clara era uma menina que adorava fazer perguntas. Tinha recebido o nome perfeito. Sim, Clara! O nome lhe cabia muito bem, na opinião da mãe, não simplesmente porque a menina era bem clarinha, da pele bem alva, como algodão, mas porque a menina adorava explicações. Com ela tudo tinha que ser esclarecido na hora. Nada de deixar dúvidas para depois. Tudo às claras. As perguntas sem resposta a sufocavam, como se faltasse o ar para respirar. A avó sempre dizia: que menina mais perguntadeira!... Essa menina é muito precoce para a idade que tem! Se ela não entende, diz que o mundo está de ponta cabeça. E lá foi Clara procurar saber o que era precoce. Se a mãe não estava por perto para esclarecer, era um Deus nos acuda, um agita daqui e outro procura dali, até achar a resposta... A mãe era a tábua de salvação, porque sabia buscar a melhor explicação no dicionário. O que ela não suportava era ficar com uma palavra perdida, boiando dentro da cabeça, remoendo, incomodando, sem entender o que queria dizer. Pois, lá no dicionário, a mãe rapidamente encontrava o significado de tudo. Encontrava e lia para Clarinha... Se fosse preciso também esmiuçava a explicação, até a filha ficar satisfeita. Clara era a menina dos porquês: por que isto? Por que aquilo, por que aquilo outro? Pois vamos lá, dizia a mãe!Vamos mergulhar no dicionário... Precoce é um adjetivo, uma qualidade; significa prematuro, antecipado, temporão. Fui Clara? Perguntava a mãe, para se divertir com a filha Clara curiosa. Sim, precoce era a qualidade de alguém que fazia as coisas antes da hora. O bebê prematuro é o que nasce antes dos nove meses... (nove meses é o tempo que leva para o bebê ficar prontinho na barriga da mãe, até a hora de nascer). O fruto temporão é o que nasce fora da estação. Estações do ano... Lembra-se Clara? Primavera, das flores; Verão, do calor; Outono, das frutas; Inverno do frio... Embora hoje tudo esteja muito diferente do meu tempo, quando tudo era na época certinha. Agora é uma confusão no clima, no tempo, por causa de muitos fatores que interferem na natureza, como é o caso do aquecimento global. Há um desequilíbrio no Planeta; na flora e na fauna... As plantas e os animais estão sofrendo as consequências das mudanças no clima da Terra. Por isto o tempo está tão diferente da minha época, esclarecia a mãe. É... O mundo está mesmo de cabeça para baixo! Só falta laranja nascer em pé de mamão, melão em pé de jabuticaba, jaca em pé de pitanga e uva nascer em pé de mexerica. Já imaginou que confusão? Vovó só repete, balançando a cabeça com desânimo: - este mundo está mesmo perdido, de ponta cabeça! Que confusão danada das frutas nascerem em árvores trocadas! Até que ia ser muito engraçado, mas não ia dar certo não!... Maçã com gosto de goiaba, ameixa com sabor de limão e abacate com cheiro de manga. Rosa com cara de cravo, alface com jeito de manjericão, pepino da cor do tomate e sabor de agrião... Arroz com gosto de feijão!
          
Continua.... 
           

sábado, 27 de maio de 2017

O Trem


O trem treme no trilho

E traz trezentos trabalhadores.

O trem vem de Petrópolis.

Trinta e três desembarcam atrasados,

Duzentos e sessenta e sete

Seguem viagem...Outros na estação.

Treze sentam atrás.

Os outros sentam à frente.

O cobrador atrapalhado

Troca três por dois trocados.

No trânsito congestionado,

Todos pedem passagem.

Só o trem não fica travado.

Na trama do trilho o trem vai...

No atrito do tráfego entroncado,

Só o trem não se atrapalha:

O trem nunca erra o trajeto,

Nunca deixa a estrada de ferro

Segue a viagem... Abafa o berro.

Traz atriz, traz trapezista,

Traz trombone, traz artista
Traz espartilho e saia.

Traz tranca para porta de trinco,

Traz trova, traz travesseiro e prato.

Traz o trágico professor de teatro.

Traz trecos, traz trupe, atores...

Traz índio da tribo tabajara...

Traz trapos e cobertores.

Traz estrondo dos tambores

E tropas de cavalos e burros.

O trem todo dia trabalha,

Já carregou mais de um trilhão

De tralhas e gente em frangalhos.

Traz cacarecos. Traz trigo, traz milho,

Apetrechos, trevos, bonecos e grilos,

Jogadores, tabuleiros e baralhos.

O trem nunca pega a contramão.

No fim da viagem, troca de carro e carvão.

O foguista enfim descansa

E apaga a grande fornalha.

O motorneiro trava a cancela,
Apaga o cigarro de palha.

O trem para na estação,

Faz barulho de trovão

Chia, treme e solta fumaça:

Piu ... Piu ...

E esvazia o vagão, 

O carregador descarrega a bagagem,
O passageiro entrega a passagem,

E o palhaço faz graça e trapaça
E afaga a pança em ridícula massagem.

Francisco toca o trombone na praça

E todo mundo alegre se abraça.



quinta-feira, 25 de maio de 2017

A Circunferência






                                                                 Ilustração: Internet

A circunferência não tem nó.
É um abraço extenso,
Ponto rente ao ponto
Feito ciranda infantil...
Na circunscrição
A circunferência
É um traço só.

Não tem começo nem fim,
Pois seu limite é sutil.
É de barbante,
É de metal,
É de cipó...


Autora: Valéria Áureo






Lulúpulas

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